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Predestinada ao sucesso – Da ferrovia à industrialização

Predestinada ao sucesso - Da ferrovia à industrialização

As fases do crescimento de Três Lagoas: ferrovia, hidrelétrica e industrialização

Ao longo dos cem anos de Três Lagoas, pelo menos três fases distintas fizeram com que o município se desenvolvesse e alcançasse o status de terceira cidade do Estado não só em número de habitantes, mas também no que se refere ao seu perfil socioeconômico. A Despeito de alguns períodos de estagnação, o município sempre contou com uma carta-na-manga, o que não deixou que ela se limitasse a uma cidadezinha às margens da linha férrea, como muitos outros ao longo da antiga NOB (Noroeste do Brasil) entre Bauru (SP) e Corumbá (MS).  Cumpre observar, entretanto, que a localização geográfica privilegiada a colocou em vantagem em relação aos outros municípios.

Predestinada ao crescimento e ao sucesso, a antiga Cidade Caçula do Estado (à época do Mato Grosso Uno), já foi chamada também de Cidade das Águas, pela abundância de mananciais e agora ostenta o título de Capital da Celulose.

 

 

 

 

 

Os censos demográficos atestam o seu crescimento. Em 1940 os números apontavam para 15.378 habitantes. Vinte anos depois, levantamento mostrava o dobro da população, que chegava a 31.690 moradores. Em 1991 contava com 68.162 habitantes e 2000, com o advento da industrialização, totalizava 78.900 habitantes. No último censo havia 101.722 habitantes e a estimativa atual do IBGE é de 111.652 munícipes, o que faz dela o 268º maior município brasileiro.

FERROVIA

O primeiro boom de crescimento de Três Lagoas surgiu quando do seu nascimento, com a implantação da ferrovia, em 1914. Ao contrário do que ocorreu em muitas outras localidades, os empreiteiros – vindos até do exterior – optaram por permanecer na cidade e fizeram com que ela se desenvolvesse. Uma das provas disto são os árabes, como a Família Zaguir, que é proprietária de significativo espaço no centro da cidade.

Em relação à ferrovia, duas particularidades não existem mais: o transporte de passageiros, que ainda emociona os nostálgicos e as passagens de nível pelo centro da cidade, que tanto irritou motoristas devido à longa espera pela manobra dos trens.

USINA HIDRELÉTRICA

Passados 45 anos, em 1960 surgiu a segunda grande oportunidade de desenvolvimento do município: a construção da Usina Hidrelétrica Souza Dias. Concluída em 1974, no que se refere ao crescimento de Três Lagoas, esta obra teve dois vieses: prosperou um sem número de moradores locais – principalmente empreiteiros, entre os quais os saudosos Miguel Tabox e Carlos Nunes Zuque – e atraiu uma leva significativa de pessoas, que nunca mais saiu daqui. Com isso, contribuiu para o crescimento demográfico e, consequentemente, para o progresso do município. Foi nessa época, por exemplo, que surgiu a Vila Piloto, que permaneceu por um período inativa, mas foi reativada na gestão do ex-prefeito Miguel Tabox e hoje é um dos maiores bairros da cidade.

A realidade da Hidrelétrica também será outra. A Usina continua a mesma. Uma mudança significativa, porém, merece destaque. É que tão logo fique pronta a ponte rodoviária interligando Três Lagoas a Castilho, paralela à ponte férrea, os carros deixarão de passar por sobre a crista da hidrelétrica, que não foi construída com esta finalidade e, por isso mesmo, vive sob constante processo de restauração.

INDUSTRIALIZAÇÃO

 

Já na década de 1990, Três Lagoas pôde experimentar o início de uma nova fase do desenvolvimento, cujo resultado tem refletido nas últimas décadas. A sua industrialização, que transformou o perfil do município fazendo, inclusive, com que o seu PIB influenciasse no PIB do Estado e até do País. Tudo começou com a Mabel, que atraiu várias outras indústrias do ramo têxtil e também de outras atividades econômicas, culminando com duas fábricas de celulose e uma de papel, além de uma siderúrgica e uma inacabada fábrica de fertilizantes da Petrobras. Além da vocação natural para o desenvolvimento, o que possibilitou com que Três Lagoas se tornasse uma cidade industrial foi a sua potencialidade logística, com hidrovia, ferrovia, rodovia e, mais recentemente, uma linha aérea regular.

Em todas estas fases de crescimento, por Três Lagoas fazer fronteira com o Estado de São Paulo, muitos empresários do município vizinhos viram o município como um eldorado e aqui aportaram em diferentes períodos. Prova disto, é que o seu comércio central repleto de lojistas paulistas, sobretudo de Andradina, distante 45 quilômetros daqui.

LIGAÇÃO QUE SUPERA UM SÉCULO

 

A estação ferroviária de Três Lagoas foi inaugurada em 31 de dezembro de 1912. Apesar disto, por dificuldades técnicas e financeiras, havia cerca de 200 km de trilhos para serem finalizados (trechos Jupiá-Agua Clara e Pedro Celestino-Porto Esperança), fato que ocorreu apenas em outubro de 1914. Quatro anos antes, em 1910, a futura estação foi o estopim para a fundação da cidade de Três Lagoas, que nascia com o trem. Em 1917 a ferrovia é fundida no trecho da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), que fazia o trecho paulista Bauru-Itapura.

Em 1957 a Noroeste foi integrada à Rede Ferroviária Federal (RFFSA), e em 1996 voltou a ser operada por uma empresa privada, a saber, um consórcio formado exclusivamente por empresas estrangeiras e liderado pelo norte-americano Noel Group, que arrematou em leilão os direitos de arrendamento do tráfego e de utilização das instalações e equipamentos da velha ferrovia.

Em 1992 a RFFSA foi incluída no Programa Nacional de Desestatização e sua dissolvição ocorreu em 1999, sendo que sua extinção se deu em 2007. A ferrovia atualmente é gerida pela ALL (América Latina Logística).

Ainda hoje a ferrovia contribui para o desenvolvimento de Três Lagoas, transportando a produção industrial como, por exemplo, das empresas Fibria e Cargill.

Das centenas de trabalhadores empregados nas atividades do transporte ferroviário, em Três Lagoas, hoje apenas são mantidas algumas dezenas na manutenção da linha e no escritório de representação da empresa, na nova estação ferroviária. Durante décadas, a profissão de ferroviários era uma das mais rentáveis e almejadas do município.

A ligação da ferrovia com Três Lagoas chega aos 100 anos com a construção do contorno ferroviário, que era um antigo sonho dos moradores, retirar o tráfego de trens do centro da cidade. Um novo desafio ainda está por vir, que a destinação da área chamada de esplanada da NOB.

A USINA JUPIÁ E SEU LEGADO PARA A REGIÃO

 

Terceira maior do Brasil, a Usina de Jupiá, a Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias, foi construída no Rio Paraná, onde se localizava o Salto de Urubupungá, na confluência com rio Sucuriú.

A partir da construção da usina, com a finalidade de acelerar as obras, surgiu o projeto Vila dos Operadores, como era chamada na época, que alojava os operários responsáveis pelas construções como também suas famílias. O projeto de residencial começou com a criação do Estatuto Formal, seguido de um contrato onde permitiam somente moradores que trabalhassem na CESP, tais como, engenheiros, mecânicos, eletricistas, técnicos e operadores da Usina. Foram construídas 227 casas divididas em 4 blocos. Por volta de 1964/65 deu-se início a algumas construções como: escola, pousada, pomar, supermercado, barbearia, correio, rodoviária, entre outras. A pousada alojava apenas os engenheiros estrangeiros (franceses e italianos).

Após 30 anos, a CESP deu início à privatização das casas da Vila dos Operadores, onde atualmente funciona o Condomínio Residencial Encontro das Águas que conta com 133 famílias residentes.

Do lado de cá do rio surgiu a Vila Piloto, que atualmente é um dos maiores bairros de Três Lagoas. À época contava com cerca de 14 mil habitantes e contava com hospital, escola e outras estruturas que o tornava independente da relação com a comunidade três-lagoense.

A Vila Piloto permaneceu por vários anos inativa, mas foi reativada pelo prefeito Miguel Tabox, na década de 1990, hoje voltou a ser um bairro praticamente independente de Três Lagoas, dispondo de praticamente toda estrutura necessária ao atendimento do cidadão.

DA MABEL À FÁBRICA DE FERTILIZANTES

 

Em seu momento atual, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Três Lagoas responde por 50% do volume de exportação industrial do estado de Mato Grosso do Sul, sendo os principais itens a celulose e o farelo de soja. Com quase três mil empresas instaladas  e mais de 50 indústrias de grande e médio porte, Três Lagoas é o polo industrial do estado de Mato Grosso do Sul, apesar de não ser a maior em volume econômico, com o segundo maior PIB Industrial do Estado.

Tendo iniciado com a fábrica de biscoito Mabel no final da década de 90, na sequencia veio a Metalfrio, que instalou na cidade a maior fábrica de refrigeradores industriais da América Latina, com produção anual de um milhão de unidades. Nos últimos cinco anos, as mudanças se aceleraram ainda mais com a chegada da Fibria e a Eldorado, duas grandes produtoras de celulose, aliada à International Paper, fábrica de papel. Além disso, o município conta com a fábrica da Cargill, com capacidade de produção/dia de 700.000 LITROS de óleo biodiesel, Sitrel e outras inúmeras fábricas no Parque Industrial. Há ainda a expectativa em relação à fábrica de fertilizantes nitrogenados da Petrobras, cujas obras (75% concluídas) estão paralisadas, com previsão de retornarem no segundo semestre. Está fábrica encontra-se instalada no Distrito Industrial III, próximo ao Córrego Moeda.

Para se ter ideia do nível alcançado pela industrialização, em 2010, Três Lagoas foi considerada a 25ª cidade mais dinâmica do País. E uma nova fase de crescimento se avizinha, com a ampliação das fábricas de celulose, da IP e novos investimentos também na Cargill.

João Maria Vicente

Hojemais Três Lagoas