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Lira Neto: O fato de esse livro vir logo depois da biografia do Getúlio não é uma coincidência

Mas o debate não é novo na história da festa popular, nem da trajetória do samba no Brasil.

 

Para o escritor Lira Neto, que está lançando o primeiro de três volumes de Uma História do Samba , "esse discurso do politicamente correto, de tentar higienizar e limpar o samba é muito antigo, mas agora é reforçado pelas redes sociais".

Em entrevista à BBC Brasil, o autor da trilogia sobre a vida de Getúlio Vargas explica como o Estado Novo quis se apropriar do samba para tentar forjar uma identidade nacional brasileira.

Segundo Lira, "o samba é um elemento interessante para a interpretação do Brasil, com todas as interferências que ele sofreu, de algo que foi cooptado pelo mercado, apropriado politicamente, e de como ele conseguiu, no meio de tudo isso, encontrar mecanismos de continuar existindo, pujante, e de nos emocionar".Lira Neto - Não é a primeira vez. O samba já passou por esse processo, já teve o impacto disso antes. Estava lendo uma matéria da Revista da Semana daquela época, na qual o cronista escreve que "o samba é algo muito interessante, mas precisa deixar de ser bárbaro, precisa ser mais civilizado para que a gente possa transformá-lo em algo mais palatável".

Ora, esse discurso do "politicamente correto" é muito antigo, de tentar higienizar, limpar o samba. Se você pega a produção do Sinhô, um dos pioneiros do samba, ou do Ismael Silva - era uma produção machista e misógina até, pois falava da mulher que apanhava, do malandro que não trocava nada pela orgia, ou seja, tudo isso tinha um contingente muito machista.

Eu estava dando uma aula em Vermont, nos Estados Unidos, no meio do ano passado, sobre história da música brasileira, e mostrei as letras aos alunos. Eles ficaram escandalizados, acharam muito machistas. E eu tive que mostrar a eles que aquilo era fruto de determinadas contradições daquele tempo e que precisamos ouvir as músicas no seu devido contexto.

Você acha que Mário Lago era machista por causa da Amélia (de Ai Que Saudades da Amélia ), que Ataulfo Alves era machista? A música era profundamente machista para os nossos valores de hoje. Se você levar a questão das marchinhas ao extremo, o que vai acontecer? Você vai deixar de ouvir Ismael Silva, Sinhô, Mário Lago, de ler Monteiro Lobato? Daqui a pouco você cerceou e policiou de forma absurda.

Meu amigo Luis Antonio Silva falou o seguinte numa entrevista recente: "Não se pode proibir ninguém de cantar nada. Cada um canta o que quiser, e cada um não canta o que não quiser". Quer cantar essas marchinhas no bloco, cante. Não quer, não cante. É importante compreender que elas foram marchinhas feitas num determinado momento histórico e numa determinada situação.

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